Corpo-Líquido – Marina Scandolara

“Corpo líquido” busca diluir suas fronteiras e criar relações à partir das vivencias do corpo artista sobre o entendimento da instabilidade e poética líquida. Estas relações potencializam a construção cênica, de movimento e sentidos na pesquisa, uma vez que os estados de corpo gerados dialogam e alteram estados e entendimentos de vida.

 

No fluxo das imagens que me atravessam

Dos poemas que me alimentam

Das sensações que tomam conta

Desta correnteza ininterrupta que me percorre

Da calmaria de um lago à turbulência de uma cachoeira

Da instabilidade que me estremece, fragiliza , fortalece…

 

Esparramo, acomodo, fluo

Pauso…

Percorro, vazo

Congelo, choro, borbulho

Transpareço, evaporo, me desfaço…

 

Me desfaço em pedaços

Pedaços líquidos

Gotículas instáveis sem forma

que se transformam

Diluem e preenchem…

Preenchem espaços vazios

 

Marina Scandolara

 

Modos de construir presenças e ausências do Corpo Artista em Práticas Performativas

Luciana Navarro*

*Proponente de Oficina Permanente de Dança  – Modos de construir presenças e ausências do Corpo Artista em Práticas Performativas- todas as quartas

Estes encontros pretendem refletir o corpo artista como ativador de estratégias poéticas capazes de criar tensões e trânsitos entre presenças e a ausências do performer na cena e na relação com sua audiência.

A partir de práticas performativas que envolvem ações físicas, escrita, leituras de textos, foto, vídeo, deslocamentos espaço-tempo, imagens poéticas, investigação de movimento, uso de objetos e figurino; referências de artistas e conceitos como apropriação e antropofagia,  estaremos experienciando diferentes modos de relacionar corpo-cena-espaço íntimo do artista e público.

O objetivo é criar respostas performativas individuais e em grupo e relacionar  deliberadamente criação, preparação, treinamento, formação,  improviso e cena por meio de teorias e práticas advindas do teatro, da dança , das artes visuais e afins.

AGOSTO: Estudos sobre espaço íntimo e espaço performativo

Fotos: Luciana Navarro

Quando o corpo é espaço ele diz e pronto!
A ação não é apenas proposta
O que as ações/corpo/imagem fazem é se atravessar. A pedra que já estava ali, o corpo que já estava ali, o sol que sempre esta aqui.
Quando o corpo/imagem age como corpoi/magem o que ele faz é ligar os pontos de atravessamento. E esses são inúmeros!
(Loana Campos)

Tem uma linha e um nó no meio do meu ponto um sopro viro flauta tudo dança.

Quando fico cansada eu como como como. E continuo cansada. Comer não descansa.

Plena tonteria. Acabo de me ver totalmente indecisa, perdida. Onde colocar este pano de prato, molhado?

E o que é aquele sapato lá em cima, olhando pra mim?

As escutas. Ouvir a voz experimentar o que despertam em mim as vibrações da voz sem decifrações As vibrações. O que despertam em mim. Nenhuma atenção ao que retenho. Onde tocam o que despertam. Muitas as escutas.

(Kusum Toledo)

O espaço  já está  preenchido.

A Kuzum está longe, mas sinto que atravessa as paredes brancas.

Já existem muitos rastros

Vejo minha trajetória no chão branco

Imagens sensações por onde minha mente transita.

Sei que ela passou por ali

Mas está atrás de mim

Não vi, mas sinto, ouço

O ruído preenche… esvazia…

Agora tem espaço para mim…

Entro

As memórias e as imagens constroem as minhas ações

Imagens de mim mesma, da minha casa

Falas das casas dos outros constroem as ações da minha casa

Torna tudo mais dinâmico

Muda o fluxo e a velocidade da ação e do acesso.

Vejo a câmera e já fico ausente

Porque na memória do meu corpo

Respondo com o meu sorriso

Aquele sem graça de dez anos atrás

Ausência

Kuzum está longe,  fora e presente

Eu dentro fico ausente

Não sustento

Saio

Mas logo escrevo e estou presente

A fala que não se fala

A mente que preenche

A criação da mente

A mosca que passa.

(Marina Scandolara)

 

 

CarneVegetal – My body, I love you

 

 

CarneVegetal é uma saudação ao corpo; uma declaração de amor ao corpo poético. Por meio da reoganização de hábitos cotidianos (alimentares, respiratórios e meditativos) que apontam para experiências de ação- contemplação e presença-ausência, o artista pode ativar memórias adormecidas e escutar desejos propulsores de novas  práticas artísticas.

São utilizadas  buchas vegetais e tijolos, materiais porosos, vazados, que apontam para a poética de um corpo permeável, que se doa para atravessamentos poéticos, buscando algum tipo de materialidade para suas imagens interiores e suas intuições orgânicas.

CarneVegetal pensa cena e corpo em uma relação estreita e co-dependente; intimidade e dimensão pública como pontos de contato geradores de tensões potentes para a criação de uma dança performativa estruturada entre buchas e tijolos.

(Luciana Navarro – artista residente do projeto PIP Galeria Espaço Cênico).

 

palavra para fazer (dança) – Leprevost

palavra para fazer (dança)

1. o que aqui começa, o que continua? 2. meu fraco são as axilas, e a nuca, também a nuca. 3. esforço-me para ser um bicho de estimação, sou indomado. 4. veja os pombos, tendo os pés no chão ou nas alturas se faz muita cagada. 5. o verde é um personagem, o vermelho outro. 6. é sobre um coro de bêbados também. 7. a tarde e a noite, a primeira finda, a outra se estica, tudo escurece, o poema de hoje. 8. a urgência não dá espaço para escolhas. 9. a beleza está aqui na minha frente, ela dança intercalando sofreguidão e a mais morna e macia das ações. 10. parabéns aos Hércules que fingem suportar. 11. deixa a tristeza escorrer.12. sabe aquela música Doody IV, do Nei Lisboa? 13. toda fragilidade é na primeira pessoa. 14. meu pau não é dos maiores, mas sei usar bem. 15. sempre estamos aprendendo outras coisas do mesmo das coisas. 16. que alternativas tenho eu? 17. as folhas são ferrugem nos galhos, o fim de tarde colhe a luz azulejada, começa a chover, o centro alaga, devo chamar isso de cenário? 18. o poema narrativo está se reinventando. 19. a luz parece deslocada no meio do cinza do dia. 20. a poesia é erro. 21. há aqueles que sorvem catástrofes feito sorvetes sorvessem. 22. o corpo é o começo do meu texto é o meu nome completo.

1. o domador jamais saberá dançar. 2. odores por baixo das roupas, odores por baixo do desodorante, por baixo dos sabonetes os odores nos deixam lobos. 3. sou cordeiro? destripa-me. 4. fazer outro copo deste humilhado. 5. ir aonde são gritadoras as deidades da beleza. 6. engendrar as danças que ainda nem nasceram. 7. malfadadas as formas sem poesia. 8. nunca se viu nenhum velório no poeta habitado. 9. agora também sabemos, partículas de deus e quem vive de quem?

quero ter esta fé, de que vim ao mundo para me despir, não para me vestir. todos os nossos pertences no meio da rua. o que são os preços para quererem tocar o ar? invocações das dimensões incógnitas da vida, venham para mim. eu sou louco, quero atravessar objetos. quero dançar com você.

nessa cinza molhada gelada horrível manhã curitibana parece que tudo quer e vai morrer (se é que já não está morto). mas não eu. eu estou aceso.

há coisas a meu respeito de que nem meus amigos mais próximos têm conhecimento. por exemplo, sabem eles que dos meus 16 aos 20 anos fui jogador aplicado de squash, este esporte considerado tão burguês, ao mesmo tempo tão prático para uma cidade como Curitiba cujo índice pluviométrico se dá como um dos maiores do país? não sabem. hoje, 13 anos depois, voltei a jogar e foi como houvesse nunca parado. toda a técnica, os tempos de bola estavam em mim, no corpo. poder voltar ao jogo se deve ao fato de, desde fevereiro, vir cuidando de minha saúde, com acompanhamento de Valeria Guilherme, a quem devo este salvamento da vida pela via do esporte, não para projeções platônicas de futuro, mas para o regalo do presente. comprometido com o processo de dança que venho desenvolvendo com Carmen Jorge e Ane Adade, e também com o grupo Batom, passei a reparar que por muito tempo vivi o conflito de negligenciar o corpo no âmbito da saúde, ao mesmo tempo em que colocava desafios hercúleos para ele. em minha pessoal experiência, o teatro propriamente se coloca neste lugar de recodificações físicas, ações impossíveis, habitações extraordinárias, mas nunca nos malabarismos. usar o corpo no teatro e dar conta, sempre me deu orgulho e dor existencial. quanto ao corpo dos esportes, não sei bem quando passei a me envergonhar dele, quando comecei a negá-lo como fosse algo menor, mediocrizado pelo capitalismo, pela padronização do corpo-massa a que se referia Celina Sodré em suas aulas, na CAL, opondo-o ao corpo-canal, aprendidos das teorias de Jerzy Grotowski. bem, definitivamente não sou o padrão, nem de um, nem de outro. e meu corpo, infelizmente, nunca emitiu luz que eu saiba, como o do ator Ryszard Cieslak. sou radicalmente pelo corpo-canal, mas já sei que para sê-lo integralmente, é preciso que todos os outros corpos possíveis e impossíveis estejam nele contidos. todavia, não tenho mais do que me envergonhar. nem mesmo de ser apenas mais um rostinho bonito, como sei que de mim já se falou, talvez de modo metafórico, querendo se insinuar outras ofensas. já senti na carne tudo isso, toda a glória de ser um corpo-canal, o corpo-massa fracassado e o gigantesco preconceito, ignorado, que existe contra o gordo (hambúrguer e anfetamina, que fossa, hein, meu chapa!? daí que se me acusarem de burguesinho (por um lado, não sou, mas por outro, sou) curitibano do Batel (onde não moro, mas já morei, assim como no bairro de Santa Quitéria), como muito já se fez, por ter agora, após uma vida de 13 anos (a maioria deles entregue aos excessos, especialmente do álcool), voltado a jogar squash, só poderei abrir um nem tão sutil bocejo, porque estarei descansando para a próxima partida. mal me comparando, Vinicius de Moraes treinou jiu-jitsu com Hélio Gracie. quando os lutadores souberam que ele escrevia poesia, fizeram insinuações a cerca de sua masculinidade. nunca teremos certeza, mas tal preconceito possivelmente o afastou do esporte. certamente não era este o motivo de Vinicius de Moraes (tão meu pai quanto meu pai e é por isso que posso falar assim dele) ter sido alcoólatra (e sua dignidade, intacta). o buraco da escravidão do alcoolismo é bem mais embaixo (sei disso, apesar de não ser alcoólatra). não pretendo com isso mudar ninguém. tenho amigos que bebem e fumam e eles sabem que não fico dando uma de Dr. Drauzio. é como diz o mestre Tibério Santos, não ofertemos sentido a quem não demanda. de todo modo, se os amigos quiserem vir para uma caminhada comigo, vou ficar feliz, porque as pernas nos ajudam a pensar. Ernest Hemingway escrevia em pé. segundo um de seus poemas, Paulo Leminski também. Murakami escreveu um livro chamado Do que eu falo quando eu falo de corrida. no romance O Animal Agonizante, Philip Roth, mais sutilmente, coloca dois grandes amigos, sessentões, um crítico de arte, o outro poeta laureado, tendo os papos mais banalmente profundos nos intervalos de suas partidas de squash. é um detalhe no brilhante livro de Roth, mas que joga estes dois senhores bem sucedidos profissionalmente direto na discussão de relevantes conteúdos da contemporaneidade: o enclausuramento das relações nas cidades, o corpo que não quer envelhecer e morrer… Roth espelha a beleza da juventude selvagem e latina com a sabedoria civilizadamente ilustrada, de herança européia. e a doença em tudo sob as aparências. e o amor está em foco, no velho que não sabe deixar de pensar feito um adolescente em busca de sexo apesar de ter o conhecimento do mundo, vendo-se escravo dos afetos, de um jeito tão antigo de sentir e lidar com o medo da rejeição. a incapacidade de se deixar fazer as mortes necessárias para o amadurecimento, algo como o filho do protagonistas não conseguir matar o pai. ou a amante de anos cujo o sexo envelhecido (beleza e frescor já não contam), automático (animalidade já não se faz presente), casual (mais tolerância, conforto, que admiração apaixonada), sendo o mais permanentemente inevitável e até profundo relacionamento. é sublime o livro de Roth e não pretendo dar conta aqui de analisá-lo. São apenas pensamentos um tanto apressados que me chegam à mente agora, após cinquenta minutos dentro de uma sala de squash, este aquário retangular que alugamos pagando com o cartão de crédito e em que nos debatemos para gratuitamente suar. é idiota, eu sei. mas se olhado com o devido distanciamento, o que não é? por outro lado, é um esporte. como tal, promove a estetização e ritualização de uma forma de vida. e isso é já bonito. sei que eu deveria estar teorizando sobre teatro e poesia para ser um pouco mais respeitado. paciência. mesmo sabendo de minha trágica condição humana, mesmo sabendo que basta um passo de cima do meio-fio na direção da linha do Ônibus Expresso e ele providenciará o meu fim, estou empenhado na tentativa, talvez vã, de cuidar de minha saúde. e textos como este são o máximo que pretendo fazer contra mim.