Fica comigo! Você. [me desespera] de Renata Roel

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A espera é um encantamento: recebi a ordem de não me mexer. A espera de um telefonema se tece assim de pequeníssimas interdições, ao infinito, até o inconfessável: não me permito sair do cômodo, ir ao banheiro, nem mesmo telefonar (para não ocupar o aparelho); sofro quando me telefonam (pela mesma razão); desespero de pensar que a tal hora próxima terei que sair, correndo o risco, assim de perder a chama benfazeja, o retorno da Mãe. Todas essas diversões que me solicitam seriam momentos perdidos para a espera, impurezas de angústia. Pois a angústia de espera, na sua pureza, exige que eu permaneça sentado numa poltrona ao pé do telefone, sem fazer nada.

(Fragmentos de um discurso amoro – Roland Bathes)

No des- espero choro.

http://www.youtube.com/watch?v=Ins1b2ezL2A&feature=youtu.be

É Quase Como Que – Mariana Batista

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Íntimo….

é o que está em mim hoje, é o que eu sinto, é o que eu desejo…intimidade

Existe muito espaço entre as pessoas.

Partes do corpo: olho / boca

o movimento da fala me interessa, a articulação dos lábios e mandíbula.

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Um processo de dança para vídeo ou um vídeo-dança (sobre o solo “quase como se estivesse aqui”):

 

Este trabalho é um solo de dança construído especificamente para vídeo, então envolve dois processos de estudo: A composição de movimentos, pesquisa corporal e também de vídeo/imagens. A pesquisa entre esses dois processos permeia em como utilizar e escolher os diferentes recursos que o vídeo proporciona conectando com as escolhas de movimento.

A forma como estou trabalhando com o solo envolve escolhas enquanto performer e também como observador. Na posição como performer e criador o estudo é focado na pesquisa de movimentos, no como eu investigo as informações corporais e seleciono caminhos para comunicar a ideia proposta. Além da pesquisa corporal é realizada uma pesquisa de imagem, ou seja, investiga-se como é o olhar de fora para o trabalho,  que como observador é um importante estudo para a harmonização entre movimento e imagem.

Me pergunto qual é o caminho que está direcionando meu trabalho: Se são minhas escolhas em relação ao vídeo ou à pesquisa de movimento? Acredito que no momento um está dependendo do outro, eles ocorrem simultaneamente.  Esta é a forma como percebo o andamento do processo.

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O que me motivou a iniciar esta pesquisa?

Um medo temor ao sentir que alguém viria falar comigo. Uma mulher oriental que passava pela rua conversando com a outra mulher que fez o gesto de colocar a mão na orelha para entender melhor o que a outra estava falando. Um motorista de ônibus que foi um grosso ao ordenar que sentássemos sem permitir que a gente perguntasse se estávamos no ônibus certo. O chinês do restaurante que ficou irritado porque perguntamos como era a comida do cardápio que estava escrito em inglês e que ele entendeu que tínhamos perguntado se naquele restaurante tinha comida do nosso pais e ai ele ficou ofendido. Os desentendimentos. O dia que fui fazer compra sozinha na farmácia  e tive que ir no self checkout onde vc tem que scanear os produtos sozinho e logo colocar na sacola para a maquina identificar o peso do produto e se isso não acontecer a maquina trava e fica falando com você  te ordenando a fazer alguma coisa que naquele dia eu não entendi – depois eu entendi.  O terrível dia que tinha um compromisso num lugar que eu ainda não conhecia  e me arrisquei a pedir uma informação para o motorista de ônibus (de novo o motorista) e ele me respondeu com o proposito de esclarecer minha duvida, quer dizer se eu tivesse entendido teria esclarecido, mas eu peguei o ônibus errado e fui para o outro lado; a sensação de incapacidade. Do dia que fui voluntaria numa apresentação de dança e fiquei feliz porque consegui servir cerveja e vinho para o público e ainda assistir a apresentação de graça. De ter conhecido pessoas de todas as partes do mundo que tem as mesmas dificuldades e angustias que eu morando aqui sem conseguir ter segurança ao me comunicar, pelo menos no começo. De ter participado de uma residência de dança de uma semana sem entender direito a fala verbal mas a comunicação rolou fluida aqui com os corpos em movimentos. De ver um mundo tão igual e ao mesmo tempo tão diferente entre aqui e ai. Por ver pessoas solitárias todos os dias nas ruas.  Por não entender direito como o cardápio e o tamanho das porções  funcionam aqui e perceber que sempre tem comida para 2 ou 3. Por ver o desperdício. Por ter assistido  o cara enorme tomando seu café da manhã no hotel gemendo e grunindo o tempo todo enchendo seu prato com ceral, leite, e comendo sua panqueca com melado.  Por ver uma mulher no ônibus constrangida por que era sua primeira vez manuseando sua cadeira de rodas elétrica e ela não sabia direito como funcionava.  Por ter que ir no banco depositar um cheque, pagar um aluguel, imprimir um arquivo e suar muito para fazer isso. Por ter ficado dois messes morando sozinha e perceber que em pouco tempo eu ganhei alguns amigos aqui. Por ter morado dois messes sozinha e sentir solidão. Pela clareza e tranquilidade que minha mente foi reconhecendo cada palavra e entendo o significado de uma sentença sem muito esforço. Por participar de um bate papo após uma apresentação de um trabalho que dancei  e ter falado em público. Por ter ido numa palestra de uma artista onde ela falou que o corpo é seu país. Por encontrar todos os dias minha vizinha chinesa que não fala inglês e que sempre me cumprimenta com um sorriso e uma simpatia imensa. Por  faltar coragem as vezes de ir falar apenas “oi”. Por fazer fazer coisas que você achava que nunca iria fazer. Por perceber que …

 

(É Quase Como Que) from Mariana Batista on Vimeo.

Oficina Permanente de Contato Improvisação

Marina Scandolara*

*Proponente de Oficina Permanente de Contato Improvisação – todo primeiro sábado do mês

Estes encontros têm como proposta explorar a potencialidade poética e criativa dos corpos na prática de contato improvisação. Além do estudo das estruturas corporais, relações de peso e contrapeso, suspensões e diferentes tipos de toque, buscam refinar a escuta e a comunicação entre os corpos.

Cada vez mais interessa a clareza da informação proposta no espaço. Perceber, organizar e informar a dança no espaço e para o outro. Este reconhecimento trás refinamento e possibilita mais liberdade de criação.

Poder aquietar expectativas, perceber as pequenas danças que já acontecem com o corpo em repouso, reconhecer o corpo do outro, as várias “camadas” que antecedem o toque, arquiteturas e estruturas corporais, disponibilizar o corpo para encaixes, reconhecer as constantes ações de resistir e ceder (para o chão, para si, para o espaço e para os outros) fazem parte dos conteúdos desta oficina, que acredita na potencia imagética e poética que surgem do corpo e do movimento.

 

 

Corpo-Líquido – Marina Scandolara

“Corpo líquido” busca diluir suas fronteiras e criar relações à partir das vivencias do corpo artista sobre o entendimento da instabilidade e poética líquida. Estas relações potencializam a construção cênica, de movimento e sentidos na pesquisa, uma vez que os estados de corpo gerados dialogam e alteram estados e entendimentos de vida.

 

No fluxo das imagens que me atravessam

Dos poemas que me alimentam

Das sensações que tomam conta

Desta correnteza ininterrupta que me percorre

Da calmaria de um lago à turbulência de uma cachoeira

Da instabilidade que me estremece, fragiliza , fortalece…

 

Esparramo, acomodo, fluo

Pauso…

Percorro, vazo

Congelo, choro, borbulho

Transpareço, evaporo, me desfaço…

 

Me desfaço em pedaços

Pedaços líquidos

Gotículas instáveis sem forma

que se transformam

Diluem e preenchem…

Preenchem espaços vazios

 

Marina Scandolara

 

Modos de construir presenças e ausências do Corpo Artista em Práticas Performativas

Luciana Navarro*

*Proponente de Oficina Permanente de Dança  – Modos de construir presenças e ausências do Corpo Artista em Práticas Performativas- todas as quartas

Estes encontros pretendem refletir o corpo artista como ativador de estratégias poéticas capazes de criar tensões e trânsitos entre presenças e a ausências do performer na cena e na relação com sua audiência.

A partir de práticas performativas que envolvem ações físicas, escrita, leituras de textos, foto, vídeo, deslocamentos espaço-tempo, imagens poéticas, investigação de movimento, uso de objetos e figurino; referências de artistas e conceitos como apropriação e antropofagia,  estaremos experienciando diferentes modos de relacionar corpo-cena-espaço íntimo do artista e público.

O objetivo é criar respostas performativas individuais e em grupo e relacionar  deliberadamente criação, preparação, treinamento, formação,  improviso e cena por meio de teorias e práticas advindas do teatro, da dança , das artes visuais e afins.

AGOSTO: Estudos sobre espaço íntimo e espaço performativo

Fotos: Luciana Navarro

Quando o corpo é espaço ele diz e pronto!
A ação não é apenas proposta
O que as ações/corpo/imagem fazem é se atravessar. A pedra que já estava ali, o corpo que já estava ali, o sol que sempre esta aqui.
Quando o corpo/imagem age como corpoi/magem o que ele faz é ligar os pontos de atravessamento. E esses são inúmeros!
(Loana Campos)

Tem uma linha e um nó no meio do meu ponto um sopro viro flauta tudo dança.

Quando fico cansada eu como como como. E continuo cansada. Comer não descansa.

Plena tonteria. Acabo de me ver totalmente indecisa, perdida. Onde colocar este pano de prato, molhado?

E o que é aquele sapato lá em cima, olhando pra mim?

As escutas. Ouvir a voz experimentar o que despertam em mim as vibrações da voz sem decifrações As vibrações. O que despertam em mim. Nenhuma atenção ao que retenho. Onde tocam o que despertam. Muitas as escutas.

(Kusum Toledo)

O espaço  já está  preenchido.

A Kuzum está longe, mas sinto que atravessa as paredes brancas.

Já existem muitos rastros

Vejo minha trajetória no chão branco

Imagens sensações por onde minha mente transita.

Sei que ela passou por ali

Mas está atrás de mim

Não vi, mas sinto, ouço

O ruído preenche… esvazia…

Agora tem espaço para mim…

Entro

As memórias e as imagens constroem as minhas ações

Imagens de mim mesma, da minha casa

Falas das casas dos outros constroem as ações da minha casa

Torna tudo mais dinâmico

Muda o fluxo e a velocidade da ação e do acesso.

Vejo a câmera e já fico ausente

Porque na memória do meu corpo

Respondo com o meu sorriso

Aquele sem graça de dez anos atrás

Ausência

Kuzum está longe,  fora e presente

Eu dentro fico ausente

Não sustento

Saio

Mas logo escrevo e estou presente

A fala que não se fala

A mente que preenche

A criação da mente

A mosca que passa.

(Marina Scandolara)

 

 

CarneVegetal – My body, I love you

 

 

CarneVegetal é uma saudação ao corpo; uma declaração de amor ao corpo poético. Por meio da reoganização de hábitos cotidianos (alimentares, respiratórios e meditativos) que apontam para experiências de ação- contemplação e presença-ausência, o artista pode ativar memórias adormecidas e escutar desejos propulsores de novas  práticas artísticas.

São utilizadas  buchas vegetais e tijolos, materiais porosos, vazados, que apontam para a poética de um corpo permeável, que se doa para atravessamentos poéticos, buscando algum tipo de materialidade para suas imagens interiores e suas intuições orgânicas.

CarneVegetal pensa cena e corpo em uma relação estreita e co-dependente; intimidade e dimensão pública como pontos de contato geradores de tensões potentes para a criação de uma dança performativa estruturada entre buchas e tijolos.

(Luciana Navarro – artista residente do projeto PIP Galeria Espaço Cênico).