Poética dos líquidos

Poética dos Líquidos parte da ideia de “coreografar a atenção”, uma vez que a cena se organiza em diferentes momentos identificados por diferentes “estados e qualidades corporais” gerados pelo direcionamento da atenção da artista. Os direcionamentos partem da percepção dos fluidos do corpo e dos diferentes estados e qualidades da água.

Atualmente investiga como potencializar qualidades e experimentar a temporalidade e manutenção dos estados gerados na cena permitindo que o corpo encontre diferentes formas de se organizar. Pesquisa as fronteiras entre estruturas pré-estabelecidas e improvisação: como manter a imprevisibilidade na configuração do trabalho.

…as vezes tenho vontade de arrancar minha cabeça…

ALONGO SUAS/MINHAS CURVAS

PROLONGO SEU/MEU OLHAR

TRAGO SEU OLHAR PRA PERTO

UMA LUPA NA FRENTE DE MIM

MAIS PERTO MAIS SÉRIO

MAIS PERTO MAIS DENSO

ABANDONO MINHA CABEÇA

COM MUITA FORÇA A SEGURO APERTO E EMPURRO

 

não tenho rosto

tem algo que me angustia no meu próprio corpo,

tenho procurado chãos em mim

a palavra chão me remete a teto que remete a pressão 

chão pressão teto

vejo como um possível começo para me perceber corpo

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FOTO: KEVIN NECESSARY PHOTOGRAPHY

Você, meu dispositivo de vigilância (Renata Roel)

Reflexão sobre as escolhas, sobre as presenças e artifícios de criação cênica:

Os pontos de semelhanças entre objetos de naturezas diferentes: Espelho e Webcam. Sobre uma criação analógica, buscando diferentes fisicalidades do que existe (realmente) e do que acontece (virtualmente). Um Quem-Sujeito que se localiza visualmente nesse espaço espelho/webcam. O visual se torna tato e se espalha pelo corpo (músculos, pele, tendões, ossos, boca, cabelo…). Diz-se agora ser uma criação analógica, pois interessa a qualidade desse sujeito-eu e os tantos quem’s que nele/dele se desdobram. Tenta-se na imagem da webcam e do espelho: volume, peso, intensidade dos tantos outros num só.  Em frente a webcam/espelho algo se altera, altera o modo de ser e surgem outras fisicalidades.

Seriam personagens ativados? Nesse caso, faço enquanto criadora dessa investigação em dança algumas aproximações e relações entre uma coisa (espelho) e outra (webcam), entre os Eu’s, olhando para os modos de Ser Eu em relação à Outros. Outros eu’s <> outros eles. Busco esses espaços para os Outros Quem’s num só.

Reflexões sobre os desdobramentos da comunicação, da construção e suas relações poéticas:

Os buracos entre os Eu’s aparecem como guia dessa criação em dança. Entro numa brincadeira entre personagens e fisicalidades desses: Eu’s, Outros, Nós, Quem’s. Danço para a Webcam e, observo concomitantemente e invisto nisso, Eu’s tentando ser Outros. Aparece sutilmente uma presença que tenta seduzir a si mesma e também os buracos de espera, de Ser para o Outro, de Seduzir a Si e de estar constantemente cavando buracos para que caiba Outros em Mim. Parece ensimesmado e ao mesmo tempo pareço estar na multidão. Perdida nos buracos de como me vejo e do que/como Sou para Outro’s. Essa devolutiva imediata do Espelho, essa Imagem do Eu, me mostra os buracos-abismos-espaços e a necessidade, enquanto existir, de complementaridades. Ou seriam as incompletudes?

Mesmo em tantos Nós, há também espaço e volume para abrir mais buracos- póros-espaços- abismos para Outros me Deformarem.

Salvador, 3 de novembro de 2012.

Renata Roel ( agradecimento à Colaboração e Olhar Sensível de Candice Didonet)

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Poética dos Líquidos

Poética dos Líquidos

Vídeo produzido como experimento da pesquisa – Poética dos Líquidos – possibilitou uma nova textura de relação, composição e qualidade de movimento para o trabalho – a partir da ideia/ação de “aquarelar”.

Vídeo:

Desenho de Conrad Roset

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